domingo, fevereiro 18, 2007

Why have Ferrari shoes?


It's not like they are going to make you run any faster...

I went home to this:

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

domingo, fevereiro 04, 2007

Porque sim






«Quando eu cheguei à perigosa idade dos 40, quase todas as minhas amigas, mães, como eu, de adolescentes, ostentavam orgulhosamente barrigas de grávida. Eu olhava para elas e babava-me de inveja. E, naquela atitude meio infantil de "se elas têm, eu também quero", engravidei por três vezes. E, por razões que o médico nunca conseguiu perceber, por três vezes abortei, bem para lá dos dois meses de gestação.

Só eu sei o que isso me custou - tanto em termos físicos como psicológicos. Internamentos, raspagens, pouca paciência do pessoal hospitalar ("quê? era o terceiro filho? Para que é que quer tanto filho?"), foram experiências que me marcaram para sempre. Posso (ou se calhar nem posso…) imaginar o que passa uma mulher obrigada mesmo a abortar. Porque nenhuma mulher aborta simplesmente porque sim, nem de ânimo leve, nem - oh céus! - utiliza o aborto como habitual método contraceptivo. Se, juntando a tudo isso, ainda há uma lei que as manda para a cadeia - em que mundo-cão é que nós vivemos! E não me venham agora com aquele incompreensível argumento, para apaziguar almas sensíveis, de que ninguém quer isso. É exactamente isso que os partidários do "não" neste referendo querem. Deixemo-nos de hipocrisias o que está em discussão não é saber se se é pela vida ou contra (mas alguém será contra a vida?!); o que está em discussão é saber se se pode continuar a admitir que as mulheres com dinheiro abortem legalmente, nas melhores condições e sem problemas; e as outras continuem a arriscar a saúde, a vida e a liberdade. Sempre achei estranho que decisões como esta, do foro mais íntimo de cada mulher, acabem por ficar nas mãos dos homens e dos padres (com todo o respeito por ambas as classes.) Até porque, na altura em que teria sido bom que os homens aparecessem para partilhar dores e responsabilidades, eles desaparecem do filme...

Não me interessa a contabilidade não sei se são muitas ou poucas as mulheres efectivamente condenadas. Mas sei que há uma lei que pode levar a isso. E se as leis não são para cumprir, então para que servem? A lei tem de ser mudada - e depois cumprida. É por tudo isto que dia 11 voto sim.»

Alice Vieira, escritora
(publicado no JN a 4 de fevereiro de 2007)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Aborto. Se não concorda, respeite.

Ora bem, eu não vou debitar os argumentos ilegíveis no panfleto, até porque não são meus. De resto, há uns tipos na baixa de Coimbra que passaram um bom bocado a tentar convercer-me de algo que eu já estava convencida.

Sim, pois, e tal, o aborto é ilegal (mentira, ele está regulado na lei). Sim, pois, e tal, a lei não é suficiente e promove indirectamente uma série de condutas clandestinas de maior ou menor risco, higiéne e dignidade (mmm... haverá mesmo alguém que faça um aborto e que se sinta bem - dignificada - com o que está a fazer?) e como é óbvio a existência de uma lei menos restritiva não implica, de modo algum, a obrigação de abortar nem o aumento do número de abortos (nem que seja apenas porque agora não temos meios seguros de os quantificar).

O objectivo duma maior flexibilidade legislativa seria, certamente, aborta quem quer, mas calma. Haveria que garantir que quem quer abortar de facto quer e não está a ser coagida por outrém a fazê-lo, além de que se encontra mentalmente capacitada para tomar essa decisão, ou seja, a mulher deve manifestar consciência das consequências hipotéticas tanto de ter como de não ter a criança e, se assim o entender, receber apoio terapêutico (por exemplo, há quem gostasse muito de ter filhos, mas não os possa sustentar). Até porque não é o procedimento médico em si (desde que devidamente assistido) que tem consequências: são os "e se..." e os "e se..." fazem mais danos do que os que qualquer procedimento físico poderia causar.

Por outro lado, já ouvi não sei onde que durante a gestação o corpo não pertence à mulher, mas torna-se um "ninho" para a futura criança. Gente, não ver o próprio corpo como sendo seu é um sintoma tão grave que a simples presença é suficiente para preencher o critério A do diagnóstico da Esquizofrenia.

O corpo de cada uma a cada uma pertence.

Agora o mais importante, prestem atenção:


O aborto é um direito da criança.

O aborto, tal como está regulamentado à data, viola de forma grave o direito da criança a ser amada e protegida, vestida e alimentada, tratada com dignidade. Uma criança não é uma peça de roupa que se compra porque é gira, uma criança dá trabalho, é uma responsabilidade, como tal, ou há o comprometimento de a ter e de a cuidar, a percepção e convicção de que a criança é uma pessoa que vale por si mesma e não um apêndice narcísico, ou tê-la é ser terrivelmente cruel para com ela. É expô-la ao mau-trato, ao abuso, à vida em lares de acolhimento, ao capricho dos adultos. Até as crianças que são adoptadas e cuidadas por familias competentes estão em risco, a lei não protege de forma suficientemente eficaz as familias de afecto.

As crianças não devem nunca pagar pela estupidez de adultos que não têm noção do que é o estabelecimento de uma relação de vinculação primária nem das condições necessárias para o fazerem - não falo só dos pais, mas, sobretudo, dos legisladores.

No nosso país, as leis são feitas por homens, homens que são engenheiros, filósofos, advogados, economistas e outras abstracções acabadas em -istas, homens que podem ter uma noção de ética clara (ahem...) e correcta relativamente ao valor da vida humana, mas que não compreendem propriamente que antes de exigirem que se preze uma vida que ainda não existe por si mesma, é necessário criar condições facilitadores para as mães e os pais possam exercer o seu papel de forma adequada e apoiar convenientemente a promoção da sua autonomia em todos os aspectos.


Antes de nos preocuparmos com a incubação das crianças, temos de nos preocupar com a incubação dos pais.


A restrição da prática do aborto, tal como se encontra hoje legislada, não permite a opção legal de abortar salvo em caso de violação, perigo para a saúde da mulher ou perigo para a saúde mental da mulher. Estas crianças cujo aborto já se permite seriam, de alguma forma, menos crianças do que as que seriam abortadas por outros motivos?
Certamente, mesmo com a hipotética possibilidade de escolha no início de qualquer gravidez, os nossos lares, orfanatos, ninhos e/ou refúgios continuariam, tal como agora, a estar repletos de crianças que anseiam por estabelecer uma relação primária com qualquer adulto que encontrem (nem falo dos abusos).

Se a política natalista do nosso governo passa por fechar Maternidades (e nós bem sabemos que as têm fechado... como se as que restam tivessem capacidade de lidar com todas as gravidezes!), porque é que não pode passar por uma nova regulamentação da prática do aborto por forma a permitir-la num leque mais abragente de situações?

A prevenção da gravidez não é apenas uma questão de evitar o sexo, nem de presença/ausência de contracepção durante o sexo, até porque nenhum método contraceptivo é 100% eficaz. Muito menos uma questão religiosa. Mais do que isso, o aborto é uma questão de direito a tomar uma decisão séria e de último recurso, que ninguém toma de ânimo leve e que implica a noção de que, de facto, o direito à vida é inviolável.


Mas o direito à vida não é, de forma alguma,
o mesmo que o direito a estar biologicamente vivo.
A vida é muito mais do que biologia.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Ramblings

Either i'm intolerant or people are failing me.
Really hope it's the first one.

domingo, janeiro 14, 2007

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar
nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.

A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o
pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que
gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti

terça-feira, janeiro 09, 2007

10 Reasons Why Gay Marriage Is Wrong

01) Being gay is not natural. Real Americans always reject unnatural things like eyeglasses, polyester, and air conditioning.

02) Gay marriage will encourage people to be gay, in the same way that hanging around tall people will make you tall.

03) Legalizing gay marriage will open the door to all kinds of crazy behavior. People may even wish to marry their pets because a dog has legal standing and can sign a marriage contract.

04) Straight marriage has been around a long time and hasn’t changed at all; women are still property, blacks still can’t marry whites, and divorce is still illegal.

05) Straight marriage will be less meaningful if gay marriage were allowed; the sanctity of Britany Spears’ 55-hour just-for-fun marriage would be destroyed.

06) Straight marriages are valid because they produce children. Gay couples, infertile couples, and old people shouldn’t be allowed to marry because our orphanages aren’t full yet, and the world needs more children.

07) Obviously gay parents will raise gay children, since straight parents only raise straight children.

08) Gay marriage is not supported by religion. In a theocracy like ours, the values of one religion are imposed on the entire country. That’s why we have only one religion in America.

09) Children can never succeed without a male and a female role model at home. That’s why we as a society expressly forbid single parents to raise children.

10) Gay marriage will change the foundation of society; we could never adapt to new social norms. Just like we haven’t adapted to cars, the service-sector economy, or longer life spans.

domingo, janeiro 07, 2007

Banished Words List

WE'RE PREGNANT -- Grounded for nine months.

UNDOCUMENTED ALIEN -- "If they haven't followed the law to get here, they are by definition 'illegal.' It's like saying a drug dealer is an 'undocumented pharmacist.'"

BOASTS -- See classified advertisements for houses, as in "master bedroom boasts his-and-her fireplaces -- never 'bathroom apologizes for cracked linoleum,' or 'kitchen laments pathetic placement of electrical outlets.'"

sábado, janeiro 06, 2007

O caminho do Daniel

«A Daniel, el Mochuelo, le dolía esta despedida como nunca sospechara. Él no tenía la culpa de ser un sentimental. Ni de que el valle estuviera ligado a él de aquella manera absorbente y dolorosa. No le interesaba el progreso. El progreso, en verdad, no le importaba un ardite. Y, en cambio, le importaban los trenes diminutos en la distancia y los caseríos blancos y los prados y los maizales parcelados; y la Poza del Inglés, y la gruesa y enloquecida corriente del Chorro; y el corro de bolos; y los tañidos de las campanas parroquiales; y el gato de la Guindilla; y el agrio olor de las encellas sucias; y la formación pausada y solemne y plástica de una boñiga; y el rincón melancólico y salvaje donde su amigo Germán, el Tiñoso, dormía el sueño eterno; y el chillido reiterado y monótono de los sapos bajo las piedras en las noches húmedas; y las pecas de la Uca—uca y los movimientos lentos de su madre en los quehaceres domésticos; y la entrega confiada y dócil de los pececillos del río; y tantas y tantas otras cosas del valle. Sin embargo, todo había de dejarlo por el progreso. Él no tenía aún autonomía ni capacidad de decisión. El poder de decisión le llega al hombre cuando ya no le hace falta para nada; cuando ni un solo día puede dejar de guiar un carro o picar piedra si no quiere quedarse sin comer. ¿Para qué valía, entonces, la capacidad de decisión de un hombre, si puede saberse? La vida era el peor tirano conocido. Cuando la vida le agarra a uno, sobra todo poder de decisión. En cambio, él todavía estaba en condiciones de decidir, pero como solamente tenía once años, era su padre quiendecidía por él. ¿Por qué, Señor, por qué el mundo se organizaba tan rematadamente mal?

(...)

Don José, el cura, que era un gran santo, le dio buenos consejos y le deseó los mayores éxitos. A la legua se advertía que don José tenía pena por perderle. Y Daniel, el Mochuelo, recordó su sermón del día de la Virgen. Don José, el cura, dijo entonces que cada cual tenía un camino marcado en la vida y que se podía renegar de ese camino por ambición y sensualidad y que un mendigo podía ser más rico que un millonario en su palacio, cargado de mármoles y criados.

Al recordar esto, Daniel, el Mochuelo, pensó que él renegaba de su camino por la ambición de su padre. Y contuvo un estremecimiento. Le anegó la tristeza al pensar que a lo mejor, a su vuelta, don José ya no estaría en el confesionario ni podría llamarle "gitanón", sino en una hornacina de la parroquia, convertido en un santo de corona y peana. Pero, en ese caso, su cuerpo corrupto se pudriría junto al de Germán, el Tiñoso, en el pequeño cementerio de los dos cipreses rayanos a la iglesia. Y miró a don José con insistencia, agobiado por la sensación de que no volvería a verle hablar, accionar, enfilar sus ojillos pitañosos y agudos.

Y, al pasar por la finca del Indiano, quiso ponerse triste al pensar en la Mica, que iba a casarse uno de aquellos días, en la ciudad. Pero no sintió pesadumbre por no poder ver a la Mica, sino por la necesidad de abandonar el valle sin que la Mica le viese y le compadeciese y pensase que era desgraciado.

El Moñigo no había querido despedirse porque Roque bajaría a la estación a la mañana siguiente. Le abrazaría en último extremo y vigilaría si sabía ser hombre hasta el fin. Con frecuencia le había advertido el Moñigo:

—Al marcharte no debes llorar. Un hombre no debe llorar aunque se le muera su padre entre horribles dolores.»
(Delibes, M. El camino)